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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares

 

Parabéns pelo engenho e pela arte.

E a lucidez tão crua.

E a competência de quem tão bem conhece a condição humana. Não é um RX, é mais uma ressonância magnética.

E a poesia, bela, inevitavelmente, porque é o que nos resta para conseguirmos sobreviver sem enlouquecer.

É uma epopeia.

Não é a descoberta do caminho marítimo, mas é o percurso de um português até à Índia.

Com uma estrutura semelhante aos Lusíadas , X Cantos, e com a chegada no início do Canto VII.

no meu quarto

no meu quarto.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

há uma grande cumplicidade entre a menina e a mulher adulta. Pode parecer conflituoso, mas não, não é.

Entre as corridas desvairadas de cavalinhos brancos fugidos de um carrossel mágico, que se enredam em preocupações com doenças, guerras e mágoas, há uma consciência que se reflecte num sorriso e que recentra a vida no que é realmente importante.

E é sempre com a ajuda da infância – e do seu imaginário – que as dores se esbatem.

No final do dia, com ingenuidade e cansaço, dão as mãos e entendem-se.

ao longo do dia

Ao longo do dia.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

Sou tantos voos durante um dia

Borboleta com asas bordadas de cores garridas

Pardal-montês a maior parte do tempo, fazendo, fazendo sem se dar por isso

Melro-azul guardiã solitária do bem estar dos meus amores

E como matriz, ágil, atenta e forte, sou o voo largo e sem cansaços da águia real.

um homem e uma mulher jovens

entraram no eléctrico e sentaram-se lado a lado no banco, de frente para o meu lugar. Não há muito para fazer numa viagem lenta, olho para eles e para a paisagem - que já conheço bem – e fixo-me na mulher que me parece triste, decpecionada, com a mala junto ao peito a olhar para as mãos. Não levanta os olhos das mãos. Começei logo a pensar que deve ter alguém de família doente, preocupações com o emprego ou com a falta dele, achei que aquele desânimo era sentido e fiquei incomodada, apetecia-me dizer-lhe qualquer coisa. Entretanto dei por ele a olhá-la de soslaio, e ela nada, e ele olhava, desviava o olhar e olhava outra vez. Passou a demorar-se neste jogo, disse-lhe um segredo e riu-se. Ela olhou para ele e riu-se também. Numa cumplicidade maior que o eléctrico deram as mãos e não paravam de rir. Fiquei parva, porque não os tinha visto como casal, mas também me senti mais confortada, não só por pensar que a haver um problema não era nada que não se pudesse resolver como, também, por confirmar que o amor – seja de que forma for - é o nosso grande nivelador. Entretanto saí, a sorrir.

uso ilimitado – custo igual

é uma alegria. As operadoras estenderam aos telemóveis o pacote da televisão, net e fixo, é uma grande alegria. Agora sim, quando estivermos doidos de contentes numa esplanada sós ou com alguém que já conhecemos de ginjeira e que, por isso mesmo, não nos consegue surpreender, agora sim é só pegar no telemóvel e de enfiada, se quisermos, falarmos com uma data de amigos que nos querem mesmo bem e que nos distinguem imenso com a sua atenção e falar, falar, partilhar e emocionarmo-nos bastante, como aquela quantidade de gente alegre e bem disposta que está sempre a falar com amigos e quando desligam, vejo isso muito no comboio, ficam com ar apardalado, seja lá o que apardalado for.

Eu acho que isto ainda vem acinzentar mais a nuvem de cada um. Porque passados os primeiros tempos da excitação própria da promessa de infinitas possibilidades, começamos a fazer contas. Mas, afinal, eu já liguei a fulano quatro ou cinco vezes, ele também tem este plano e não telefona. Porquê? E a outra? Ai é, agora não ligo tão cedo. E começa a ser muito triste saber que podemos ligar a todos sem pagar mais nada do que já pagamos e não nos apetecer telefonar por causa disto e daquilo. Que é, afinal, o que já acontece com os fixos. Lembro-me muito bem quando telefonar a alguém custava pagar alguma coisa, se fizéssemos dez chamadas no mês era isso que pagaríamos e se resolvêssemos agradar a mais gente, telefonando-lhes, no fim do mês isso tinha custos. E quem recebia a chamada agradecia porque, para além da atenção/carinho/amor/preocupação também, havia um preço a pagar por isso. Agora que estamos no tempo dos pacotes, quem recebe a chamada até já acha que o outro está a telefonar porque não tem nada para fazer, não paga nada e quer companhia. Em pouco tempo inverteu-se tudo.

Cheguei ao ponto em que gostaria de refletir. A nossa insatisfação. O tal espaço destinado ao amor e que tem sempre algum canto vazio. Mesmo que tenhamos par, família e amigos a quem dar atenção e cuidados existe o amor narcisista que é um cavalo por domar. Nuns mais que noutros, é certo. Dependemos da admiração de outros, independentemente se são ou não muito importantes na nossa vida, isso até é bom, é a vizinhança alargada, a partilha da nossa humanidade, mas queremos quase sempre alguma coisa a mais, uma distinção qualquer e, aí, chegam as deceções, lado a lado com a bênção da companhia. Somos gregários, lidamos mal com a solidão. Somos vaidosos, precisamos de alimentar o ego. Ainda assim ter consciência destes meandros torna-nos mais fortes, talvez nos dê a força suficiente para não despejarmos em alguém toda esta ansiedade em forma bruta. Dá-nos critério, o que é muito importante.

encontro na catedral

encontro na catedral.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

                             

entrei para não demorar muito tempo

não contava com as vozes mágicas que me fizeram elevar à altura dos vitrais

donde começei a distinguir tons lindissimos e presentes

como se cantados por anjos, tal a purificação do que ouvi.

Tento reter alguns rostos daquele coro magnífico

e saio rendida

acompanhada de mil alentos

o beijo do lobo

o beijo do lobo.jpg

 pintura a óleo, Rui Couto

 

O amor num beijo que atravessa trevas e luas

E que paira em dias de luz

Que traz e leva saudades

Num movimento de pelos e cabelos

No silêncio de uma tarde quente de Julho.

conhecemo-nos agora

neste bar da praia. Falámos uns dez minutos e pediste licença para ir fazer um telefonema.

Estou a escrever neste papel, a quente, para que não se baralhem as expectativas que tenho, para que não me ou te desculpe amanhã do que sinto agora.

Desejo que não me perguntes o nome ou onde nasci, chama-me o que quiseres, eu vou tocar-te no braço se for preciso.

Mas quero saber o que pensas da sabedoria e que música gostas de ouvir. E das palavras e da poesia, que companhia te fazem?

E quando nos despedirmos sem garantia nenhuma de nos voltarmos a encontrar vou sentir-me mais feliz por saber que também vives debaixo do meu céu.

Porque ainda não te conheço mas já te escolhi para te cobrir de sonhos.

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