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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

a verdadeira herança

a verdadeira herança.JPG

pintura a óleo, Rui Couto

 

é uma manta de amor quentinha e cheia de cores

é o carinho com que foram feitas todas as papas e pitéus

é a lembrança do colo

e das mãos que folhearam tantos livros de histórias de encantar.

A verdadeira herança é o amor

carregado de força para caminhar na vida.

Tempos modernos – a realização e o sustento (IV/IV)

Chegámos todos mais cedo e cheios de energia e expectativa. O Bruno ligou-me de véspera e combinámos tomar café para falarmos um bocado, estamos com uma certa ansiedade, sabemos que a revista não vende muito e não percebemos até onde o Helder quer ir com o seu investimento. No caminho encontrámos o Fernando que nos fez um sorriso bem disposto e confiante, e, nós, à falta de melhor, alinhámos na confiança dele. O Helder e a Paula já estavam a conversar, receberam-nos em ambiente paternalista, sentámo-nos e ficámos prontos para reflectir e projectar, que eram os pontos da reunião.

Falou o Helder, como era suposto, e disse-nos que a revista iria passar a ser gratuita, não fazia sentido estar à venda, dado que o dinheiro realizado quase não dava para as capas. Olhámo-nos todos com intensidade, como num daqueles filmes de que não fazemos ideia nenhuma do fim. Disse que tinha arranjado quatro grandes empresas que, ao abrigo da lei do mecenato, iriam cobrir as despesas e que a revista iria ser distribuída gratuitamente em viagens de avião, longo curso de comboios e em duas unidades hoteleiras. Agora teríamos de nos fixar nos conteúdos e objectivos, não baixando a qualidade de impressão. Era importante, sobretudo, não esquecer o norte, ou seja, o esclarecimento rigoroso do estado de degradação do nosso planeta, o que anda a ser estudado para colmatar esses danos e também o tanto que já anda a ser feito nesse sentido. Tão importante quanto isso, embora numa outra escala, falar de exemplos e apresentar novas ideias para que qualquer um de nós possa, no seu dia a dia, absorver e praticar outras atitutes - dignas de seres humanos que partilham a generosidade da natureza - e, até, esse respeito ser tão natural como respirar.

E disse também que contava com o empenho de todos, tal como vinha a acontecer. Comprometemo-nos, claro. Trabalhar num projecto que faz sentido e em que acreditamos, dá-nos fogo.

Tempos modernos – a realização e o sustento (III/IV)

 

E como enfrentar esta filosofia de vida quase global, que tem entrado aos poucos, de mansinho, sobretudo na chamada sociedade ocidental, em que quase todos têm direito a algum subsídio, seja de desemprego, incapacidade, doença ou formação? Toda a gente pensa que vai perder alguma coisa e ficamos quietos. Entretanto a indignação vai passando, compensada aqui e ali por uma qualquer migalha, as grandes reconstruções sociais, com especial enfoque na educação, saúde, trabalho e sustentabilidade ambiental vão sendo atamancadas, sem soluções de fundo.

Mas o Fernando acredita. Acredita e espalha. Em seminários, debates, sempre que pode e na nossa revista, claro. Já se começa a notar uma consciência colectiva dual, por um lado o conformismo - o certo é melhor do que o que não se sabe - e, por outro, o desânimo e a hipocrisia do poder - seja económico, financeiro ou político - como um clima que a todos afecta. E o Fernando acha que este acordar tem a ver com o detalhe e a decomposição com que - ele e outros – comentam as notícias oficiais.

É muito lenta esta alfabetização mas é consistente, diz ele. Talvez, digo eu.

Hoje estou que não me entendo. Quero fazer esta reportagem com rigor e alegria mas a Paula ligou e diz que já chega de vida nómada. Gostou do artigo, diz que vai ser publicado assim, tal e qual, porque quer que avance para outra realidade. Seja.

Expliquei a situação ao chefe do acampamento, compreendeu e disse-me que até lhe andava a fazer confusão como é que eles podiam ser motivo de preocupação andando o mundo como anda. Agradeci-lhe e despedi-me de todos com emoção, foram tão disponíveis, tão gentis. Foi uma vivência que vai deixar rasto, tenho a certeza, alguns levaram-me à estação e esperaram pelo meu adeus do comboio. Atitutes, foi nisto que vim a pensar na viagem e, por fim, a chegada a Lisboa.

Passei pelo supermercado e comprei mais do que o habitual porque me apetece imenso cozinhar, adoro comer os meus pitéus (que às vezes não chegam a ir ao lume), sabe-me tão bem. Liguei aos meus pais e já ficou combinado que vou lá jantar (também adoro as comidinhas da minha mãe), depois de arrumar as compras e de fazer uma ou duas máquinas de roupa. Sinto-me sempre protegida quando chego a casa dos meus pais, o cheirinho da casa e da comida, os móveis no mesmo lugar, os objectos por aqui e por ali que conheço há tanto tempo e, acima de tudo, a confiança que sinto em tudo o que digo ou faço. Falámos da família, do país e da revista. Ficaram um pouco preocupados com estas reviravoltas mas, pensaram comigo, se o projecto se mantém - foi o que me disse a Paula, quando marcou uma reunião para terça feira – então há trabalho.

 

Tempos modernos – a realização e o sustento (II/IV)

 

O feed back do artigo virá mais tarde. Agora está na hora de ir ter com o Pablo, o mais guapo dos solteiros no acampamento, para falarem da infância e juventude no grupo. Quando chegou à grande mesa comunitária lá estava ele com a irmã Carminho, um pouco mais nova, e mais dois primos. Cumprimentaram-se e foram comendo. Entre os rapazes risos, gestos e referências à noitada. O Pablo já sabia do que iam falar e, bem disposto, foi contando que para as ciganos de hoje a vida já não é tão imprevisível nem complicada como grande parte das pessoas pensa. Especialmente na Europa, com o Estado Social a garantir a todos o mínimo de condições para se ter alguma dignidade, isto agora também já não é tão claro, mas enfim, ainda se sente alguma segurança, a mais importante é na doença, apesar de a imagem habitual ser a de grandes famílias ciganas nas urgências dos hospitais, a verdade é que são atendidos, pelo menos, tanto quanto as outras raças ou grupos. O Pablo é alto, magro e bonito, moreno com uma boca carnuda e olhos escuros, não precisava de mais nada, mas tem, tem um ar de quem sabe mais do que aquilo que diz, ou então é só mesmo sedução, o que é certo é que não pára nem com o telemóvel nem com o olhar, ou então é a Rita que olha para ele como se quisesse ser raptada num cavalo branco pelas areias do deserto. Quando eram pequenos, diz ele, a sua família e as outras com quem se davam faziam a vida entre Espanha e o Alentejo, mas ficaram sempre mais por cá, dava para viverem melhor, com o que lhe davam ou que aproveitavam dos campos e com a venda de coisas que traziam e que cá eram mais caras. A escola ia-se fazendo aos poucos cá e lá, não era assunto que inquietasse alguém, o saber vinha de se ir falando, ouvindo e de levar muito a sério o ancião e chefe do grupo. A Carminho entrou na conversa, de má cara, e contou que o crescer era muito diferente para raparigas, mais vigiadas e reprimidas que os rapazes e, claro, já desconfiávamos, que a submissão era das primeiras coisas a aprender.

Não foi nada de novo. O que queremos saber é o agora.

E o agora não está fácil para quase ninguém. Anda o mundo num carrocel destravado, pelo menos assim parece. Que o diga o Fernando. Tirou economia na católica, era o melhor aluno e tem uma energia didáctica que pratica todos os dias no seu blog. Teima que há-de fazer acreditar, a quem o lê, que o conhecimento abre portas e janelas nas nossas cabeças e que só por má fé o mundo não anda equilibrado. Tem sido duro isto dos mercados financeiros. O que, ao princípio, parecia um novo caminho de investimento para tornar próximos os negócios – dentro do quadro da tão festejada globalização – tem-se revelado de uma dureza implacável em jogos de poder, pior que muitas das antigas guerras com armas, porque não atinge o indivíduo, mas povos. É uma guerra. Sem fardas e sem mantimentos.

 

Tempos modernos – a realização e o sustento (I/IV)

 

Rita acordou e sentiu-se cansada ainda antes de se levantar da cama. Quem é que se tinha lembrado de sugerir uma reportagem muito especial sobre os ciganos, vivendo com eles durante um mês, dia a dia e todos os minutos? Ninguém, só ela e aquele turbilhão no estomâgo de querer ir sempre mais longe. É certo que, hoje em dia, por causa do desemprego e da inerente criatividade necessária para arranjar trabalho qualquer um se excede em empenho, mas, caramba, esta é a terceira manhã que acorda no acampamento. É o barulho que mais a sacode. Muita gente e muito barulho, apesar de dominar a boa disposição, as tarefas são feitas em conjunto, chama-se por alguém, grita-se com outros, fala-se do que se fez, do que se vai fazer, fala-se e fala-se. Quando começou as pesquisas no google e leu uns artigos achou tudo muito atraente, sobretudo a música, mas também as origens, o não viver de maneira rotineira, a revigoração da vida nómada e outra vez a música e as danças, claro, a alegria. Tão longe lhe parecem já as rotinas na sua casinha de Alvalade.

Ontem, já bastante tarde, enviou por e.mail a primeira parte do artigo. Vamos lá ver o que pensa a Directora Paula Gomes. Não deve ser fácil gerir a revista mensal que começou há seis meses. Foi muito díficil encontrar um nome simples, apelativo e que fizesse justiça à filosofia da sua criação. Concordaram, mas não por unanimidade, com Harmonia, uma revista de formato sóbrio, tendo como preocupação essencial a preservação do ambiente e a sustentabilidade da vida no nosso planeta, tão ameaçados, e, como decorrentes, os temas que acarinham equilíbrios quer seja em comunidades, agricultura, desporto e artes. Como inimigo têm a indústria e o lucro desenfreado.

Da equipa fazem parte a Paula - que foi professora de letras durante quatro ou cinco anos e que além de grande consciência cívica tem um cuidado estético e precioso com as palavras -, o Helder que gostava de investir o dinheiro herdado em projectos que lhe dessem prazer e, como ele diz, que o façam sentir-se mais alto, o Bruno que depois de acabar o curso de audiovisuais andou a trabalhar como motorista num colégio da linha e que agora anda doido de contente com as máquinas atrás e tem tantas ideias que ele próprio se baralha, o Fernando na área da economia e que trabalha com a convicção que é agora que o mundo se vai reequilibrar e a Rita, que depois do curso de sociologia planeava trabalhar com jovens em dificuldades, percebeu que o mundo inteiro não anda lá muito bem e vê na revista uma bandeira gigante, bailarina, que a todos vai tocar. Andam todos na casa dos trinta anos, a Paula nos quarenta e o Helder, o mais maduro, tem sessenta e três anos.

 

tudo me perturba nada me demove

tudo me perturba nada me demove.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

os sorrisos

as lágrimas, as despedidas

as mãos dadas

as gargalhadas dos meus amores

o entendimento dos silêncios

a alegria

a generosidade das árvores carregadas de frutos

os campos cultivados

as flores selvagens

o berço em que o mar se torna para receber os pescadores.

Tudo me perturba, porque nada me é indiferente,

e nada me demove dos pilares essenciais que balizam a minha vida

olhares

olhares.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

há olhos redondos, em bico e outros mais ou menos

há olhares claros e de tão límpidos falam

há promessas e despedidas que se vão cumprindo sem chegar a haver palavras, honramos entendimentos sentidos.

Gosto de conversas de silêncios e de olhares, lembra-me a sensação de colo.

o universo na tua mão

 

o universo na tua mão.JPG

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

no nosso olhar, no que elaboramos ao pensar

no que somos.

E na sonhada transcendência de que tudo podemos mudar. Não podemos o “tudo”

fiquemo-nos com as possibilidades, que são tantas.

Sermos decentes, por exemplo, com a natureza e com as pessoas.

E, acima de tudo, sentirmo-nos merecedores desta dádiva, tão intrigante, que é viver.

 

o olhar da memória

o olhar da memória.jpg

 pintura a óleo, Rui Couto

 

 

é uma narrativa que fomos criando com as emoções e alguns factos

e assim a vamos contando e ouvindo.

De tão falada e comentada passa a ter mais corpo, mais verdade.

É a nossa história - não gostamos do confronto com datas ou com relatos de quem assistiu.

É assim que a queremos.

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