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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

parabéns 25 de Abril

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porque passados todos estes anos continuo a aquecer-me nessas memórias.

Parabéns porque inspiraste tantas poetas e cantores que fizeram canções que ainda hoje deveriam andar na boca de todos, especialmente dos jovens.

Parabéns porque a igualdade, a fraternidade e a justiça social não são valores que passem de moda, devem, isso sim, ser reinventados e adequados em qualquer época.

Parabéns 25 de Abril de 1974 porque foram desencadeados sonhos e acções motivadoras, especialmente ao nível comunitário de escolaridade  e de cultura popular - tão deficitários naquele tempo - o melhor processo que se poderia desejar para uma sociedade saudável, com condições de acesso para quem o desejasse.

fiz uma festa para te receber

Agosto 2014 148.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

abri os braços em vénias

falei com o sol e com o mar

pedi à terra e aos sonhos

tive todos os consentimentos,

mas tu não vieste

e tu eras a felicidade.

Aprendi que a tua presença é coisa pouca

se comparada com o desejo de te desejar.

segredos e esperas

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namoros, zangas, despedidas e gargalhadas - tudo por aqui passou - neste poial quase colado à porta do pátio que dá para a rua principal.

Olhando para as pedras gastas, polidas de tantos passos, lembro-me da Cidália, miúda morena e pequenina de cabelo apanhado num gancho grande, tão desproporcionado naquele corpinho, não era para ela. Quando aparecia, via-se sempre primeiro o gancho e muitas lhe diziam olha que ainda o perdes Cidália, ela ria-se mas não se desviava do mandado.

Havia na rua principal uma padaria, propriedade do Senhor Joaquim, homem viúvo, trabalhador e com dois filhos, que se perdia em atenções com a Dona Jesus, queria uma mulher que o ajudasse na padaria e a criar os filhos. Não teve tino na escolha, mandava a Cidália levar-lhe carcaças e pãezinhos de leite, mas era tempo perdido. A Dona Jesus era empregada numa ourivesaria na Rua da Prata e paciência para filhos dos outros já ela tinha de sobra para ouvir as queixas e os orgulhos dos miúdos do irmão do patrão, que andava há mais de dois anos a dizer que ia deixar a mulher - muito adoentada - e que iria viver com ela. Ao fim de algum tempo desistiu o Senhor Joaquim daquela conquista, atirou-se a outra e parece que foi mais rápida e bem sucedida, e a Cidália ficou com o gancho e outros mimos que a Dona Jesus lhe dera, engraçava com a miúda.

Lembro-me também da Dona Berta, casada com o Senhor Pascoal, mulher desembaraçada que ajudava toda a gente em costuras, doenças, comidas e conselhos. De maneira mais atenta estava com a vida da Dona Fernanda, casada com o Senhor Carlos, bêbedo a partir do meio dia, e com uma filha, a Conceição. Era uma casa de gritaria e mau viver e quem punha alguma normalidade naquilo era a Dona Berta. Ensinou-lhe, dizia-se, as conveniências para não engravidar de novo e a fazer-se de adoentada - era uma coisa que andava a dar resultado - nada de lhe responder, fingia-se enjoada uns tempos, e depois logo se veria do que se lembrariam mais.

Penso, hoje, que todas as épocas têm os seus recursos porque há necessidades sem resposta pronta. Naquele tempo havia muitas mulheres adoentadas, não tinham independência, sobretudo económica, e os homens trabalhavam o dia inteiro, a grande maioria como animais de carga. Era uma sobrevivência cega para todos, com pouco dinheiro e medo. Medo das doenças e da velhice e da pobreza do costume.

Não sinto saudades de ver tanta submissão e conformismo. Tantos pecados e tantos medos.

Mudou para bem melhor a vida da grande maioria das pessoas, mas não podemos baixar os braços. Nem a cabeça.

neste banco bonito

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devem ter estado muitas mães olhando pelos filhos,

confidenciando estranhezas e alegrias da vida em família.

Acho as alegrias mais óbvias. Intrigam-me mais as pequenas sementes de mau estar,

os silêncios encorpados, a ânsia de decifrar o que não tem tradução,

o problema, enfim, exposto

o engodo da plenitude,

a reviravolta.

E as crianças a quererem lanchar - a prosa da vida -

em oposição ao instinto a gemer – corpo, mente e espírito -

a poesia, em cada ser, sempre latente.

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