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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

Natal

O Natal já não é o que era. Nem o clima. Nem o emprego. Nem nada. Tudo mudou mais rapidamente do que as previsões tinham calculado.

Em pouco tempo, o Natal passou de festa simples e de princípios morais a uma obrigação de felicidade competitiva, gerando uma ansiedade do tamanho das ondas da Nazaré. Ornamentos, ementas, prendas - que, aliás, raramente satisfazem as expectativas – e a supervisão de cada um relativamente à disposição do outro. E não bastando já os habituais amuos que circulam em todas as famílias sem chegar a haver esclarecimentos ou justificações - seja por desconfianças, ciumeiras, protagonismos, esquecimentos de consultas importantes -, enfim melindres, temos também o paralelo com aquela espécie de alegria aligeirada que é o facebook.

Passámos a estar informados, quase ao minuto, sobre o que pensavam os amigos acerca das fotografias que alguém tinha posto em rede, comparando com outras de alguém que se conhece ou de quem já se ouviu alguma história, se não de todos, pelo menos de um ou de outro. A tentação é pensar que estas interferências chegam em boa hora, porque, se assim não fosse, o silêncio e os pequenos incómodos se notariam mais. Mas quase nunca é verdade, são silhuetas de bem estar.

É difícil tentar competir com encenações e as famílias têm-se ressentido desta comparação que não é leal. A partilha dos dias e das noites em casa, as refeições, o supermercado, o pagamento de contas, a avaria disto ou daquilo, as queixas dos filhos, as doenças, o peso do ambiente do trabalho e a correria para lá chegar, tudo isto não pode ser comparado com uma fotografia que alguém publica com óculos de sol numa esplanada e com uma legenda a dizer que ser feliz é para quem sabe, ou qualquer coisa do género. Eu penso que isto só dá para rir. Mas, pelos vistos, desencadeia uma espécie de incapacidade e desalento por não se saber viver tão bem. E porque precisamos de fantasias, especialmente se parecerem fáceis, assume-se esta ligeireza como padrão a seguir. É perigoso, não pela brincadeira, mas pela negação implícita a tudo o que não seja fácil, nomeadamente a família, que passa a ser olhada com aborrecimento e contrariedade. E é bom que diga que considero de família os amigos de há muito, que nos conhecem e que conhecemos.

A verdade é absolutamente necessária, se calhar hoje mais do que nunca com o excesso de apelos, porque temos de ter a certeza que vamos por aqui, em vez de ir por ali.

Voltando ao principio, o Natal já não é o que era, mas ainda é muito, é uma época de que gosto muito e que me traz sempre a memória e a felicidade de todos os Natais que já vivi.

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