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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

Tempos modernos – a realização e o sustento (II/IV)

 

O feed back do artigo virá mais tarde. Agora está na hora de ir ter com o Pablo, o mais guapo dos solteiros no acampamento, para falarem da infância e juventude no grupo. Quando chegou à grande mesa comunitária lá estava ele com a irmã Carminho, um pouco mais nova, e mais dois primos. Cumprimentaram-se e foram comendo. Entre os rapazes risos, gestos e referências à noitada. O Pablo já sabia do que iam falar e, bem disposto, foi contando que para as ciganos de hoje a vida já não é tão imprevisível nem complicada como grande parte das pessoas pensa. Especialmente na Europa, com o Estado Social a garantir a todos o mínimo de condições para se ter alguma dignidade, isto agora também já não é tão claro, mas enfim, ainda se sente alguma segurança, a mais importante é na doença, apesar de a imagem habitual ser a de grandes famílias ciganas nas urgências dos hospitais, a verdade é que são atendidos, pelo menos, tanto quanto as outras raças ou grupos. O Pablo é alto, magro e bonito, moreno com uma boca carnuda e olhos escuros, não precisava de mais nada, mas tem, tem um ar de quem sabe mais do que aquilo que diz, ou então é só mesmo sedução, o que é certo é que não pára nem com o telemóvel nem com o olhar, ou então é a Rita que olha para ele como se quisesse ser raptada num cavalo branco pelas areias do deserto. Quando eram pequenos, diz ele, a sua família e as outras com quem se davam faziam a vida entre Espanha e o Alentejo, mas ficaram sempre mais por cá, dava para viverem melhor, com o que lhe davam ou que aproveitavam dos campos e com a venda de coisas que traziam e que cá eram mais caras. A escola ia-se fazendo aos poucos cá e lá, não era assunto que inquietasse alguém, o saber vinha de se ir falando, ouvindo e de levar muito a sério o ancião e chefe do grupo. A Carminho entrou na conversa, de má cara, e contou que o crescer era muito diferente para raparigas, mais vigiadas e reprimidas que os rapazes e, claro, já desconfiávamos, que a submissão era das primeiras coisas a aprender.

Não foi nada de novo. O que queremos saber é o agora.

E o agora não está fácil para quase ninguém. Anda o mundo num carrocel destravado, pelo menos assim parece. Que o diga o Fernando. Tirou economia na católica, era o melhor aluno e tem uma energia didáctica que pratica todos os dias no seu blog. Teima que há-de fazer acreditar, a quem o lê, que o conhecimento abre portas e janelas nas nossas cabeças e que só por má fé o mundo não anda equilibrado. Tem sido duro isto dos mercados financeiros. O que, ao princípio, parecia um novo caminho de investimento para tornar próximos os negócios – dentro do quadro da tão festejada globalização – tem-se revelado de uma dureza implacável em jogos de poder, pior que muitas das antigas guerras com armas, porque não atinge o indivíduo, mas povos. É uma guerra. Sem fardas e sem mantimentos.

 

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