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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

uso ilimitado – custo igual

é uma alegria. As operadoras estenderam aos telemóveis o pacote da televisão, net e fixo, é uma grande alegria. Agora sim, quando estivermos doidos de contentes numa esplanada sós ou com alguém que já conhecemos de ginjeira e que, por isso mesmo, não nos consegue surpreender, agora sim é só pegar no telemóvel e de enfiada, se quisermos, falarmos com uma data de amigos que nos querem mesmo bem e que nos distinguem imenso com a sua atenção e falar, falar, partilhar e emocionarmo-nos bastante, como aquela quantidade de gente alegre e bem disposta que está sempre a falar com amigos e quando desligam, vejo isso muito no comboio, ficam com ar apardalado, seja lá o que apardalado for.

Eu acho que isto ainda vem acinzentar mais a nuvem de cada um. Porque passados os primeiros tempos da excitação própria da promessa de infinitas possibilidades, começamos a fazer contas. Mas, afinal, eu já liguei a fulano quatro ou cinco vezes, ele também tem este plano e não telefona. Porquê? E a outra? Ai é, agora não ligo tão cedo. E começa a ser muito triste saber que podemos ligar a todos sem pagar mais nada do que já pagamos e não nos apetecer telefonar por causa disto e daquilo. Que é, afinal, o que já acontece com os fixos. Lembro-me muito bem quando telefonar a alguém custava pagar alguma coisa, se fizéssemos dez chamadas no mês era isso que pagaríamos e se resolvêssemos agradar a mais gente, telefonando-lhes, no fim do mês isso tinha custos. E quem recebia a chamada agradecia porque, para além da atenção/carinho/amor/preocupação também, havia um preço a pagar por isso. Agora que estamos no tempo dos pacotes, quem recebe a chamada até já acha que o outro está a telefonar porque não tem nada para fazer, não paga nada e quer companhia. Em pouco tempo inverteu-se tudo.

Cheguei ao ponto em que gostaria de refletir. A nossa insatisfação. O tal espaço destinado ao amor e que tem sempre algum canto vazio. Mesmo que tenhamos par, família e amigos a quem dar atenção e cuidados existe o amor narcisista que é um cavalo por domar. Nuns mais que noutros, é certo. Dependemos da admiração de outros, independentemente se são ou não muito importantes na nossa vida, isso até é bom, é a vizinhança alargada, a partilha da nossa humanidade, mas queremos quase sempre alguma coisa a mais, uma distinção qualquer e, aí, chegam as deceções, lado a lado com a bênção da companhia. Somos gregários, lidamos mal com a solidão. Somos vaidosos, precisamos de alimentar o ego. Ainda assim ter consciência destes meandros torna-nos mais fortes, talvez nos dê a força suficiente para não despejarmos em alguém toda esta ansiedade em forma bruta. Dá-nos critério, o que é muito importante.

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