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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno

O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança, esta pulseira japonesa de esconjurar o reumatismo da alma com uma cápsula à noite, uma ampola bebível ao pequeno-almoço e a incompreensão de fora para dentro da amargura e do delírio, e se não vou para dentista na mecha fico um maluco tão sórdido e tão sem graça como eles.

Não tinha coragem de me pirar por meu turno do Bombarda, de me despir rua abaixo do cheviote psiquiátrico que me vestia por fora e por dentro, para passear, na cara estupefacta dos cisnes do Campo de Santana, tão silenciosos, tão educados, tão estúpidos, tão de baquelite na pele verde do lago….. não tinha coragem de mandar à merda a medicina, a psicanálise, os tranquilizantes, os antidepressivos, a psicoterapia, o psicodrama, a puta que os pariu. Recebia o cheque pontualmente todos os meses e fingia acreditar no meu trabalho.

 Uma espécie de repugnância, de nojo, de zanga crescia em mim numa onda de marés, e apetecia-me empurrá-los, … apetecia-me enxotá-los na direcção do portão até que recuperassem a insolência, o desafio, o orgulho, o desprezo, a firmeza, até que levantassem o queixo da mesa e me fixassem, no refeitório nauseabundo e húmido, sorrindo de altivez e de sarcasmo.

 … de todos os médicos que conheci os psicanalistas, congregação de padres laicos com bíblia, ofícios e fiéis, formam a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies. Dividem o mundo das pessoas em duas categorias inconciliáveis, a dos analisados e a dos não analisados, ou seja, a dos cristãos e a dos ímpios, e nutrem pela segunda o infinito desprezo aristocrático que se reserva aos gentios, aos não baptizados, aos que não se estendem numa cama para narrarem a um prior calado as suas íntimas e secretas misérias, as suas vergonhas, os seus medos, os seus desgostos. Nada mais existe no universo para além de uma mãe e de um pai titânicos, gigantescos, quase cósmicos, e de um filho reduzido ao ânus, ao pénis e à boca, que mantém com estas duas criaturas insuportáveis uma relação insólita de que se acha excluída a espontaneidade e a alegria.

- É preciso fazer qualquer coisa

e não percebiam que a única coisa a fazer era destruir o hospital, destruir fisicamente o hospital, os muros leprosos, os claustros, os clubes, a horta, a sinistra organização concentracionária da loucura, a pesada e hedionda burocratização da angústia, e começar do princípio, noutro local, de uma outra forma, a combater o sofrimento, a ansiedade, a depressão, a mania.

  

Não é difícil perceber quem, esbarrando em tanta miséria, preconceitos e precaridade, se vê reduzido a atestar o que já não pode ser remediado, ficando com o coração cheio de penas e sem alternativas de aplicar o que seria suposto ser vivido com empenho e entusiasmo. Com este terceiro livro, 1980, deixou de exercer psiquiatria e, felizmente, ganhámos um escritor que, para além da agudeza e sensibilidade, ainda nos deixa o testemunho de situações que só podem ser vistas de dentro. Duro, difícil, imperdível.

Rudyard Kipling (1865-1936), Se

Se és capaz de manter a tua calma quando

todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso;

 

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores,

se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

tratar da mesma forma esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

em armadilhas as verdades que disseste,

e as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste;

 

Se és capaz de arriscar numa única parada

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

e perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida;

de forçar coração, nervos, músculos, tudo

a dar seja o que for que neles ainda existe,

e a persistir assim quando, exaustos, contudo,

resta a vontade que em ti ainda ordena: persiste!;

 

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

e, entre reis, não perder a naturalidade

e de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade,

e se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo o valor e brilho,

tua é a terra com tudo o que existe no mundo,

e - o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

magnólia

os momentos mágicos e felizes que, recorrentemente, lembramos podem ter demorado pouco tempo.

Tal como a exuberância da magnólia que só dura horas.

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Clarinha

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pintura a óleo, Rui Couto

 

Vive em ardor, curiosa, sôfrega e refresca-se nas tempestades.

Não tem medo do medo e é com ele que fala. Que dizer da ganância em que tantos vivem, como se tivessem duas ou três vidas, não se comovendo com a escassez e a miséria em que outros tantos vão sobrevivendo. É miséria moral mais do que económica.

Em olhares demorados ela lê as boas intenções e as belezas da vida. Gosta muito de encontrar a esperança autêntica e virgem no rosto das crianças. Ilumina-se, também, quando a vê no rosto dos velhos onde já não poderia morar se a decepção e a tristeza tivessem morada certa.

O medo encolhe-se quando ela lhe fala assim, e pensa que deveria mudar-se para junto de quem a ingratidão é um passeio.

A Clarinha sente e vê muitas coisas que não gosta e tenta passar de largo, guarda a alegria para amar; consome-se e regala-se nessa absoluta entrega.

precisamos muito pouco da presença uns dos outros

É o que nos diz a pandemia e o que vamos vendo no correr dos dias. Correr em casa, ginasticar braços e pernas, ler e ligar o vídeo, onde nos avistamos distorcidos em intimidade doméstica. Ou nem isso.

Cansada, farta e desanimada. Já não aguento as excelentes ideias para se passar, de maneira positiva, estes dias.

Até os directos de artistas me deprimem, falta encenação, estrutura e pessoas. Caras, roupas, expressões e reacções, que fazem a diferença nos concertos, assim como o ir e voltar.

Tudo triste em vésperas do 25 de Abril, no ano de 2020.

Como é que chegámos aqui e como é que vamos sair?

Como é que vamos sacudir o medo, já tão entranhado?

Ainda bem que as visitas neste blog praticamente não saem do zero, porque não estou recomendável.

Ainda assim, reconheço neste sentir alguma liberdade.

carta para A.

Leio-te e entristece-me a distância. Toda a nudez da alma e maus tratos do corpo não deixam espaço para afagos, não aceitas mãos que te levantem. Dói assistir a tamanha fuga para o teu umbigo. Falta-te humildade e só a arrogância te salva. Orgulhas-te, e com razão, na sensibilidade e intelectualidade com que olhas para o mundo - de longe ou de muito longe mesmo - mas para quem te ama fica muito por entender. Devias duvidar, de vez em quando, da claridade do teu sentir e acreditar no sofrimento que, como humanos racionais, todos sentimos.

E é por isso que raramente te sinto mais frágil do que os atentos de mãos e pés. Tocam-se cordas diferentes mas seria bom perderes um pouco de tempo a ouvir outras sintonias. Ficávamos todos a ganhar.

o vírus da solidão

as dores de corpo foram sempre acompanhadas com as da alma, se não do próprio doeram a quem os ama, e tantas vezes com uma dor de alma dá-se cabo do corpo. Todos sabemos.

Esta pandemia sabe de desgraças. Da lepra, da peste negra, da asiática, da gripe espanhola e de tantas outras que têm sacudido pessoas em todos os tempos. Sabe de terramotos e de incêndios. Sabe da pobreza.

Tenho-me lembrado do que ouvi na escola, em miúda, sobre a inauguração do Titanic. Dizia o comandante John Smith Even God himself couldn’t sink this ship, tal era a confiança na engenharia e materiais usados na sua construção. Como se deu o naufrágio todos conhecemos a história. Dá que pensar, aliás a vida dá sempre que pensar.

É mirabolante o que estamos a viver. Pessoas de idade impedidas de tentar enganar a angústia com os filhos, netos, primos ou amigos. Os internados, por doença ou em lares, não podem recolher força das mãos da família. Os mais novos com empregos e filhos para tratar, comida, banhos, roupa e brincadeiras, mantendo a crença no futuro. As crianças também veem muito ameaçado o que há um mês e tal era terreno seguro.

Andamos todos no learning by doing. E há muita gente a fazer com força e sentido o que tem de ser feito, que é seguir em frente, com precaução e inteligência. Temos tido liderança com firmeza e com humanidade, embora as consequências já se adivinhem, como é costume, arrasadoras para os mais pobres e frágeis. Ainda que compreendendo, é difícil encaixar tanta distância e solidão.

Vamos ver se quando nos pudermos tocar, beijar e abraçar nos iremos lembrar dos dedos doridos da lixivia, que já vão ficando deformados por não se entrelaçarem em dedos amados e distantes.

Paul Bowles, Memórias de um nómada

Tinha começado a ler esta autobiografia quando foi declarada a pandemia, o terrível caos que estamos a viver, sem fim à vista e com a angústia de pouco podermos fazer, a não ser ficar em casa. Sozinhos. Nunca imaginei uma situação em que a gravidade e a apreensão não fossem vividas em matilha. Mãos e colo, panelas e tabuleiros no forno. Deve ser por isso que nunca gostei de filmes de ficção científica, achava tudo dramático e inverosímil. Tal como agora.

Este livro ajudou-me, várias vezes, a sair do momento. Escrito já no final da sua vida, em Tânger lugar paixão do escritor, fala com minúcia de toda a sua vida, dos locais onde viveu, e foram muitos, e da persistência em viver da arte. Compositor, fotógrafo e escritor, corre meio mundo em inúmeras viagens e vai falando de grandes nomes do seu tempo com quem se cruzou ou foi amigo. Intranquilo e curioso por outras paisagens e culturas começou a viver de pequenos textos que ia escrevendo. Ao mesmo tempo ia deixando aqui e ali pautas com músicas que criava até às tantas. Não poupa pormenores com o aluguer de casas, transporte de pianos, comidas ou compras, e é delicioso.

Intrigante é o acaso, o desconcerto. Toda esta mobilidade nas minhas mãos, a fazer intervalos com o nosso confinamento.

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