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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

não gosto

à falta de razões que justifiquem raivas ou emoções afins, desdobra-se a hipocrisia em facetas risíveis. Isto porque nunca, por nunca, são falados abertamente os pormenores mesquinhos que dão origem a atitudes parvas.

E está bem visto.

Seria como desarmar exércitos, serviços de espionagem e de contra espionagem e passarmo-nos a entender, não porque pensássemos todos da mesma maneira, antes porque respeitaríamos as nossas diferenças.

Mas não, parece que não é boa ideia.

De modo que cá andamos com a distância social, justificadíssima por razões sanitárias, a que juntamos a distância da parvoíce e ainda outras distâncias que, conforme a criatividade e o umbigo de cada um, se considerem atendíveis.

Não gosto.

Julian Barnes, A única história

Tem a ver com amor, porque é a que conta. Nesse durante vai-se conhecendo tudo o que há para saber ou para ignorar.

Da intimidade à banalidade vai um passo de amor, ou muitos. Tudo faz sentido se nos sentimos inquietos para ver, sorrir e estar com quem amamos, não queremos outro sítio.

Sabemos que todas as histórias de amor parecem ridículas, menos a nossa. Barnes também engrandece a sua e, ainda por cima, escreve tão bem.

Elia Suleiman, O Paraíso, Provavelmente

Bingo. Boa inspiração e um filme bem conseguido (nem sempre uma coisa leva à outra). Adorei.

Ver passar os dias em Nazaré, Paris ou Nova York e assistir ao fluxo quotidiano das cidades sem praticamente nada dizer e com elevado sentido da realidade, só pode levar ao silêncio e à comicidade.

Arthur Schopenhauer dizia que o bom humor é a única qualidade divina do homem. Suleiman aproveita bem o seu dom para apelar pela sua Palestina, sem as grandes e justas argumentações que podem ser ditas, antes com um nonsense que não se esquece.

carta para B.

escrevo-te para não te telefonar. Não quero o contraponto, a anuência, sentir o enfado ou a irritação contida. Quero falar-te de coisas de que sempre falámos, do que não se resolve, do que não incomoda sempre da mesma maneira, do alento que sentimos em certos dias e da sua falta em tantos outros. Misturamos sempre as nossas vidas no mundo, no equilíbrio e na justiça que tanto desejamos.

Nestes últimos dias tenho pensado que a esperança, a justiça e a alegria têm de ser garimpadas como se fossem pedras preciosas, andam guardadas, mal se veem, devem estar com elevada cotação. Não admira. Alterações climáticas, corrupção, vírus, desemprego, fome, violência doméstica, tantos destes sofrimentos evitáveis ou menorizados se, para isso, houvesse empenho em perseguir a ganância.

Por isso te escrevo, também não estou a ver com quem mais poderia fazê-lo, embora já saiba o que me vais dizer, que não me calo com a ganância e que não é o único mal do mundo. Mas sempre demoras um pouco mais de tempo a responder.

António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno

O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança, esta pulseira japonesa de esconjurar o reumatismo da alma com uma cápsula à noite, uma ampola bebível ao pequeno-almoço e a incompreensão de fora para dentro da amargura e do delírio, e se não vou para dentista na mecha fico um maluco tão sórdido e tão sem graça como eles.

Não tinha coragem de me pirar por meu turno do Bombarda, de me despir rua abaixo do cheviote psiquiátrico que me vestia por fora e por dentro, para passear, na cara estupefacta dos cisnes do Campo de Santana, tão silenciosos, tão educados, tão estúpidos, tão de baquelite na pele verde do lago….. não tinha coragem de mandar à merda a medicina, a psicanálise, os tranquilizantes, os antidepressivos, a psicoterapia, o psicodrama, a puta que os pariu. Recebia o cheque pontualmente todos os meses e fingia acreditar no meu trabalho.

 Uma espécie de repugnância, de nojo, de zanga crescia em mim numa onda de marés, e apetecia-me empurrá-los, … apetecia-me enxotá-los na direcção do portão até que recuperassem a insolência, o desafio, o orgulho, o desprezo, a firmeza, até que levantassem o queixo da mesa e me fixassem, no refeitório nauseabundo e húmido, sorrindo de altivez e de sarcasmo.

 … de todos os médicos que conheci os psicanalistas, congregação de padres laicos com bíblia, ofícios e fiéis, formam a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies. Dividem o mundo das pessoas em duas categorias inconciliáveis, a dos analisados e a dos não analisados, ou seja, a dos cristãos e a dos ímpios, e nutrem pela segunda o infinito desprezo aristocrático que se reserva aos gentios, aos não baptizados, aos que não se estendem numa cama para narrarem a um prior calado as suas íntimas e secretas misérias, as suas vergonhas, os seus medos, os seus desgostos. Nada mais existe no universo para além de uma mãe e de um pai titânicos, gigantescos, quase cósmicos, e de um filho reduzido ao ânus, ao pénis e à boca, que mantém com estas duas criaturas insuportáveis uma relação insólita de que se acha excluída a espontaneidade e a alegria.

- É preciso fazer qualquer coisa

e não percebiam que a única coisa a fazer era destruir o hospital, destruir fisicamente o hospital, os muros leprosos, os claustros, os clubes, a horta, a sinistra organização concentracionária da loucura, a pesada e hedionda burocratização da angústia, e começar do princípio, noutro local, de uma outra forma, a combater o sofrimento, a ansiedade, a depressão, a mania.

  

Não é difícil perceber quem, esbarrando em tanta miséria, preconceitos e precaridade, se vê reduzido a atestar o que já não pode ser remediado, ficando com o coração cheio de penas e sem alternativas de aplicar o que seria suposto ser vivido com empenho e entusiasmo. Com este terceiro livro, 1980, deixou de exercer psiquiatria e, felizmente, ganhámos um escritor que, para além da agudeza e sensibilidade, ainda nos deixa o testemunho de situações que só podem ser vistas de dentro. Duro, difícil, imperdível.

Rudyard Kipling (1865-1936), Se

Se és capaz de manter a tua calma quando

todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso;

 

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores,

se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

tratar da mesma forma esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

em armadilhas as verdades que disseste,

e as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste;

 

Se és capaz de arriscar numa única parada

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

e perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida;

de forçar coração, nervos, músculos, tudo

a dar seja o que for que neles ainda existe,

e a persistir assim quando, exaustos, contudo,

resta a vontade que em ti ainda ordena: persiste!;

 

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

e, entre reis, não perder a naturalidade

e de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade,

e se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo o valor e brilho,

tua é a terra com tudo o que existe no mundo,

e - o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

magnólia

os momentos mágicos e felizes que, recorrentemente, lembramos podem ter demorado pouco tempo.

Tal como a exuberância da magnólia que só dura horas.

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Clarinha

junho 2014 105.jpg

pintura a óleo, Rui Couto

 

Vive em ardor, curiosa, sôfrega e refresca-se nas tempestades.

Não tem medo do medo e é com ele que fala. Que dizer da ganância em que tantos vivem, como se tivessem duas ou três vidas, não se comovendo com a escassez e a miséria em que outros tantos vão sobrevivendo. É miséria moral mais do que económica.

Em olhares demorados ela lê as boas intenções e as belezas da vida. Gosta muito de encontrar a esperança autêntica e virgem no rosto das crianças. Ilumina-se, também, quando a vê no rosto dos velhos onde já não poderia morar se a decepção e a tristeza tivessem morada certa.

O medo encolhe-se quando ela lhe fala assim, e pensa que deveria mudar-se para junto de quem a ingratidão é um passeio.

A Clarinha sente e vê muitas coisas que não gosta e tenta passar de largo, guarda a alegria para amar; consome-se e regala-se nessa absoluta entrega.

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