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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

numa tarde quase de Verão

conversam amenamente duas amigas, sobre o que de mais importante se pode falar naquelas idades, filhos e maridos. Dizia uma que ele já lhe tinha apresentado a nova namorada mas que, a pretexto de combinarem os assuntos dos filhos, lhe telefona três a quatro vezes por dia. Nisto toca o telemóvel e depois de ter olhado ela confirmou, por falar nele, mas não vou atender. Ele que, na partilha das coisas da casa, até levou a almofada da cama. Que mulher admite que ele traga a almofada da antiga cama? Realmente.

Depois, e ainda quente de tanta indignação, saltou para as notícias de vigarice que tem assombrado o passado radioso e inteligente dos senhores importantes do nosso país. Era tirar-lhes tudo e pô-los com o ordenado mínimo enquanto vivessem.

Gostei.

Não me meti na conversa porque, para além de já ter idade para ser mãe delas, o foco passaria a ser a minha intrusão e, assim, tivemos todas uma tarde bonita.

José Saramago, Todos os Nomes

Nunca é só o fim de uma história que interessa saber. Por vezes, nem o princípio. É a maneira como é contada que nos vai revelando também as emoções e valores de quem conta. E Saramago era um Mestre. A ironia inteligente é o maior encanto.

O enredo não é empolgante à partida, fala da vida do Senhor José, empregado discreto e subalterno na Conservatória Geral do Registo Civil, arquivo de todos os nomes de vivos e mortos, mas o deleite é espesso e demorado, daí que só lendo.  

a violência

Os silêncios encorpados são tão ou mais perigosos do que as palavras mais tresloucadas. A agressividade dita ou exercida ocupa o espaço do respeito, que devemos a nós próprios e aos outros. As evidências, pelos vistos, não são assim tão óbvias para todos, o que explica o aumento da violência doméstica que, mesmo que diminua, continuará a ser triste e incompreensível.

ler José Saramago

sempre foi como andar com meias de lã num chão encerado, num entendimento orgânico e cultural.

Tenho saudades e vou reler Todos os nomes. Preciso desse chão.

Depois direi

elogio

- Avó onde é que aprendeste a ser tão engraçada?

pergunta-me o meu neto com os olhinhos brilhantes de tanta risota.

- Andaste nalguma escola ou assim?

Yuval Noah Harari, 21 lições para o século XXI

Não é um livro de encantamento. Fala da realidade, que não anda bonita, mas que também não está feia. Já foi muito pior e pode ser melhor. É um privilégio ler este historiador com uma visão tão abrangente da nossa época e, ao mesmo tempo, focada no que podemos fazer como indivíduos, não é muito, é certo, mas ainda é alguma coisa. Fala também de outras crises por que passámos, como espécie não como geração, seja de epidemias ou de revoluções industriais, económicas e religiosas. A organização das sociedades nunca foi fácil e o nosso tempo, inundado de informação, a maioria das vezes mais especulativa e falsa do que esclarecedora, requer muita atenção e critério.

Termos noção da nossa irrelevância e, a par disso, usarmos com critério os recursos que ainda temos, bem como o conhecimento que já conquistámos, leva-nos ao desafio de vivermos com mais nobreza.

réveillon

Quando cheguei para almoçar eles já lá estavam. Gosto de os ver, são simpáticos e interessantes. Sempre que posso sento-me perto, vou ouvindo alguma coisa e, por norma, gostaria de sair atrás deles para fazer parte daquelas correrias em que devem andar. Não foi ontem o caso. Depois de ela ter sugerido dois ou três programas para a noite do fim de ano, ele, amuado e com palavras carregadas de raiva ia desmontando tudo com a decepção de ela não conseguir acertar naquilo que ele próprio também não sabia.

ainda a propósito da greve dos estivadores do Porto de Setúbal

não consigo compreender a falta de resposta adequada. Será que é desumana a indignação de quem se levanta todos os dias de manhã para ir trabalhar sempre para o mesmo sítio com sentido de responsabilidade e ganhando o dinheiro de que precisa para viver, ainda que pouco, mas sentindo-se precário no seu esforço? Sendo que o vínculo da empresa com os trabalhadores é diário, sem a garantia de um contrato que lhes dê a segurança de em caso de doença ou de qualquer impossibilidade receberem o ordenado que merecem? Porque em caso de desmerecimento também existem os despedimentos por justa causa.

O que significa hoje ser rico? É a desvalorização das pessoas que deles dependem? Não ser relevante serem servidos por gente pobre, sem assistência médica, alimentar ou higiénica adequada? E os ricos não poderão ficar mal servidos com pessoas que podem, até, contagiá-los?

E a compaixão? E os ideais niveladores esgotam-se com a arbitrariedade das esmolas?

Não compreendo.

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