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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

carta para C.

bem hajas amiga de há tantos anos. Neste tempo de falta de esperança para o mundo que sonhávamos para os nossos filhos e netos não tens desanimado, pelo menos durante muitos dias, o que já não é pouco. Continuamos a encher boias, algumas com furos, com a força que ainda temos e que vamos fortificando com os livros, filmes e cozinhados. Continuamos a acreditar que tudo vai melhorar, que não vai ficar tudo bem, até porque já não estava, mas que os jovens se vejam como pré homens e mulheres, que arregacem mangas e ideias para o futuro que é deles, sobretudo.

E acreditamos.

o meu balão

Por norma, as limitações geram incompreensão, revolta, desafio, aceitação e conformismo. E, de certeza, tantos outros estados de que não me estou a lembrar, mas a aceitação é a que leva a palma. Ao aceitar estamos a compreender e daí vem o sossego. Se a infecção por COVID fosse a única doença que nos provocasse inquietação, mas não, estamos carregados de medos e ansiedades de tantas outras. E de culpa. E se não cheguei a todos os dedos quando passei as mãos pelo gel? e se? e se?

Anda a ser complicado manter a inocência que, mais por teimosia do que por crença, não quero abandonar. Já me parece um balão que mal controlo; valem-me os pássaros, de quem tanto gosto, que me ajudam a atrapalhar a sua subida e me fazem chegar o cordel.

em remodelação, como nas montras

é assim que ando a ver a minha vida e o mundo. Tem sido difícil mas é a minha estrada. E tenho aprendido, como todos e como sempre.

É surpreendente como os relacionamentos e os afectos têm mudado com o medo em pano de fundo, nalguns casos já se viam paredes de papelão, noutros adivinhavam-se embora enfeitados com exuberâncias panfletárias. Confesso que tive imensa dificuldade em eleger a pessoa que mais me decepcionou em 2020, mas consegui, não uma ou duas mas várias e juntei-as ao molho, abraçadas com fio de sapateiro – dá um ar artesanal – e lá estão no pódio. Quanto às que ficaram comigo, na plateia, agradeço-lhes a lealdade.

Não tem sido fácil e não será tão cedo, certamente, mas não pode vencer o cinismo e o egoísmo. É tão cru e tão feio. Os dias sobreviventes sem o calor do desejo de saber como vão os que queremos, sem a generosidade de bem fazer são um adiamento e penso que, decorrido todo este tempo, já temos a certeza que a responsabilidade individual é a atitude inteligente que podemos ter.

não gosto

à falta de razões que justifiquem raivas ou emoções afins, desdobra-se a hipocrisia em facetas risíveis. Isto porque nunca, por nunca, são falados abertamente os pormenores mesquinhos que dão origem a atitudes parvas.

E está bem visto.

Seria como desarmar exércitos, serviços de espionagem e de contra espionagem e passarmo-nos a entender, não porque pensássemos todos da mesma maneira, antes porque respeitaríamos as nossas diferenças.

Mas não, parece que não é boa ideia.

De modo que cá andamos com a distância social, justificadíssima por razões sanitárias, a que juntamos a distância da parvoíce e ainda outras distâncias que, conforme a criatividade e o umbigo de cada um, se considerem atendíveis.

Não gosto.

Julian Barnes, A única história

Tem a ver com amor, porque é a que conta. Nesse durante vai-se conhecendo tudo o que há para saber ou para ignorar.

Da intimidade à banalidade vai um passo de amor, ou muitos. Tudo faz sentido se nos sentimos inquietos para ver, sorrir e estar com quem amamos, não queremos outro sítio.

Sabemos que todas as histórias de amor parecem ridículas, menos a nossa. Barnes também engrandece a sua e, ainda por cima, escreve tão bem.

Elia Suleiman, O Paraíso, Provavelmente

Bingo. Boa inspiração e um filme bem conseguido (nem sempre uma coisa leva à outra). Adorei.

Ver passar os dias em Nazaré, Paris ou Nova York e assistir ao fluxo quotidiano das cidades sem praticamente nada dizer e com elevado sentido da realidade, só pode levar ao silêncio e à comicidade.

Arthur Schopenhauer dizia que o bom humor é a única qualidade divina do homem. Suleiman aproveita bem o seu dom para apelar pela sua Palestina, sem as grandes e justas argumentações que podem ser ditas, antes com um nonsense que não se esquece.

carta para B.

escrevo-te para não te telefonar. Não quero o contraponto, a anuência, sentir o enfado ou a irritação contida. Quero falar-te de coisas de que sempre falámos, do que não se resolve, do que não incomoda sempre da mesma maneira, do alento que sentimos em certos dias e da sua falta em tantos outros. Misturamos sempre as nossas vidas no mundo, no equilíbrio e na justiça que tanto desejamos.

Nestes últimos dias tenho pensado que a esperança, a justiça e a alegria têm de ser garimpadas como se fossem pedras preciosas, andam guardadas, mal se veem, devem estar com elevada cotação. Não admira. Alterações climáticas, corrupção, vírus, desemprego, fome, violência doméstica, tantos destes sofrimentos evitáveis ou menorizados se, para isso, houvesse empenho em perseguir a ganância.

Por isso te escrevo, também não estou a ver com quem mais poderia fazê-lo, embora já saiba o que me vais dizer, que não me calo com a ganância e que não é o único mal do mundo. Mas sempre demoras um pouco mais de tempo a responder.

António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno

O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança, esta pulseira japonesa de esconjurar o reumatismo da alma com uma cápsula à noite, uma ampola bebível ao pequeno-almoço e a incompreensão de fora para dentro da amargura e do delírio, e se não vou para dentista na mecha fico um maluco tão sórdido e tão sem graça como eles.

Não tinha coragem de me pirar por meu turno do Bombarda, de me despir rua abaixo do cheviote psiquiátrico que me vestia por fora e por dentro, para passear, na cara estupefacta dos cisnes do Campo de Santana, tão silenciosos, tão educados, tão estúpidos, tão de baquelite na pele verde do lago….. não tinha coragem de mandar à merda a medicina, a psicanálise, os tranquilizantes, os antidepressivos, a psicoterapia, o psicodrama, a puta que os pariu. Recebia o cheque pontualmente todos os meses e fingia acreditar no meu trabalho.

 Uma espécie de repugnância, de nojo, de zanga crescia em mim numa onda de marés, e apetecia-me empurrá-los, … apetecia-me enxotá-los na direcção do portão até que recuperassem a insolência, o desafio, o orgulho, o desprezo, a firmeza, até que levantassem o queixo da mesa e me fixassem, no refeitório nauseabundo e húmido, sorrindo de altivez e de sarcasmo.

 … de todos os médicos que conheci os psicanalistas, congregação de padres laicos com bíblia, ofícios e fiéis, formam a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies. Dividem o mundo das pessoas em duas categorias inconciliáveis, a dos analisados e a dos não analisados, ou seja, a dos cristãos e a dos ímpios, e nutrem pela segunda o infinito desprezo aristocrático que se reserva aos gentios, aos não baptizados, aos que não se estendem numa cama para narrarem a um prior calado as suas íntimas e secretas misérias, as suas vergonhas, os seus medos, os seus desgostos. Nada mais existe no universo para além de uma mãe e de um pai titânicos, gigantescos, quase cósmicos, e de um filho reduzido ao ânus, ao pénis e à boca, que mantém com estas duas criaturas insuportáveis uma relação insólita de que se acha excluída a espontaneidade e a alegria.

- É preciso fazer qualquer coisa

e não percebiam que a única coisa a fazer era destruir o hospital, destruir fisicamente o hospital, os muros leprosos, os claustros, os clubes, a horta, a sinistra organização concentracionária da loucura, a pesada e hedionda burocratização da angústia, e começar do princípio, noutro local, de uma outra forma, a combater o sofrimento, a ansiedade, a depressão, a mania.

  

Não é difícil perceber quem, esbarrando em tanta miséria, preconceitos e precaridade, se vê reduzido a atestar o que já não pode ser remediado, ficando com o coração cheio de penas e sem alternativas de aplicar o que seria suposto ser vivido com empenho e entusiasmo. Com este terceiro livro, 1980, deixou de exercer psiquiatria e, felizmente, ganhámos um escritor que, para além da agudeza e sensibilidade, ainda nos deixa o testemunho de situações que só podem ser vistas de dentro. Duro, difícil, imperdível.

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