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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

ser livre

IMG_2704.JPG

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

é dar liberdade aos outros

sobretudo aos que amamos.

Não tem a ver com andar despenteada ou descalça,

nem com teorias de correr o mundo de braços abertos.

Também pode.

Mas ser livre no coração e aceitar as escolhas,

que não nossas,

é que nos dá o verdadeiro sabor da liberdade.

E, como diz o poeta,

que tudo seja eterno, enquanto dure.

De preferência, se for bom, que dure muito tempo.

Javier Marías, O teu rosto amanhã (II) - Dança e sonho

quase ao acaso, porque qualquer linha é preciosa

 

… Mas a página em branco é a melhor de todas, a mais credível eternamente e a que mais conta porque nunca acaba, e na qual tudo cabe, eternamente, até os seus desmentidos; e o que esta não diga ou diga, portanto (porque ao não dizer já diz alguma coisa num mundo de infinitos dizeres simultâneos, sobrepostos, contraditórios, constantes e esgotantes e inesgotáveis), poderá ser acreditado em qualquer tempo, e não só no devido tempo para ser acreditado, que por vezes é nada, um dia ou umas horas fatais, e outras é muito comprido, um século ou vários, e então nada é fatal porque já não há quem averigue se a crença é verdadeira ou falsa, e aliás não importa a ninguém quando tudo está nivelado. …

São Jorge, filme de Marco Martins

A pobreza é desoladora, já sabemos, e parece eterna. É uma roda maluca a girar em dentes gigantes cheios de falhas e de pedregulhos que, a haver saída digna, nem se dá por ela. As soluções que vão aparecendo, como reclames luminosos, são para piorar o que já basta.

Nuno Lopes é uma inspiração, como sempre. Transpira autenticidade em qualquer trabalho. Aqui, batalhador e empenhado não perde o norte, protegendo, como pode, o filho e a mãe do miúdo. Para além disso e apesar do caos, não perde humanidade, sendo-lhe complicado cumprir ordens sacanas e implacáveis.

A história termina da melhor maneira possível. Pai e mãe, abraçados e cúmplices, inventam força no amor e na alegria de estarem juntos.

Vanessa Redgrave, Sea Sorrow

É um consolo saber que não estamos abandonados à maldade e à ignorância de uns tantos poderosos, para quem os povos servem apenas como força de trabalho ou como coros de aplausos e de enquadramento dos seus interesses. Existem muitas pessoas, igualmente poderosas, que nos seus caminhos tiveram tempo, bondade e compaixão para ir ajudando a calar os gritos mais fundos.

Este filme foi pensado e realizado por uma mulher que toda a vida foi uma activista cívica, para além de excelente atriz, e que apesar dos seus oitenta anos continua virada para o mundo, de frente e com os olhos abertos, usando, para ajudar e chamar a atenção, o reconhecimento ético que merecidamente lhe pertence. Tanto mais que não está sozinha. Apresenta-se com muitas pessoas empenhadas em lembrar a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a circunstância de ser pensada e redigida a seguir às grandes guerras, para que não se voltasse a repetir. Para que houvesse garantias de que todos os governantes respeitariam, para além dos interesses económicos ou estratégicos mais apetitosos, os direitos básicos da vida humana.

Compara as fugas e o desespero dos refugiados de ontem e de hoje.

Se bem percebi, os separadores são mantas térmicas de sobrevivência. Amarrotadas.

dar tempo ao tempo

Por falar em coisas que valem a pena, convém lembrar que o actual mantra de aceitação de tudo o que acontece, tem muito pouco de humildade.

É mais um convencimento moderno daquilo que é politicamente correcto. Fazem-se uns molhos de contrariedades, mal atados e que se aguentam uns tempos, mas é certo e sabido que se vão desatar em qualquer altura. Normalmente, em sede errada, porque não se andou triste, decepcionado ou frustrado o tempo suficiente para clarificar as intenções e o resultado.

No meu tempo a este estado de desamparo, que podia demorar, chamávamos andar numa altura de angústia existencial. Moía-se tudo e o regresso era feito com algum entusiasmo.

Acho que era mais saudável porque, quando assim era sentido, compreendia-se e dava-se espaço à tristeza, ao luto e às feridas das querelas que sempre existiram e que vamos continuando a ter uns com os outros. Desviar tudo isto para o estado continuado do tudo bem é mais artificial que o plástico. Ainda bem que os cientistas estão, já na fase de apuro, na posse da tal enzima.

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