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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

fuga

caminho e faço força nos pés

olho em frente, sempre em frente,

passo no meio de chuvas, ventos e calores.

Abano, recuo e sigo.

Ainda sei quem sou.

O Senhor Faustino está mais bonito

E é por causa daquela tristeza enevoada que ela veste

quando entra ao fim da tarde e se senta ao balcão a pedir o café,

parece-lhe um barco ancorado num cais em dia de nevoeiro.

Sente-lhe falta de força para ir para casa. É outro turno de trabalho.

É então que ele, cuidadoso e gentil, escolhe a cor do bombom

que lhe põe no pires, ao lado da colher, com a certeza que lhe melhora a vida.

Claire Denis, Un beau soleil intérieur

Este filme honesto e sério fala sobre os relacionamentos no nosso tempo e conta com o brilho da admirável Juliette Binoche. À partida poderia ser tomado por uma história levezinha e pragmática sobre a liberdade das mulheres. Mas tem outro olhar.

Falando grosso modo não se vivem tempos de contentamento. O narcisismo que tanto tem sido estimulado, em cascatas de livros de auto-ajuda, e na competição pura e dura por causa do emprego escasso, e não só, está agora instalado como verdadeira epidemia. Claro que esta onda egoísta que se vive social e individualmente veio aumentar a solidão e a insatisfação. Como se não existisse a compaixão, a generosidade, a solidariedade e outros sentimentos que vão para além de cada um. Em direcção aos outros, aos benefícios comuns.

A história do filme é banal, porque as epidemias banalizam, uma mulher separada que tem encontros amorosos sucessivos, incluindo com o ex-marido, e que procura o amor perfeito. Quanto mais tempo passa mais vai fechando os olhos a detalhes que não gosta, porque a solidão passou a pesar muito mais que o que pretende. E o filme acaba com uma consulta a um vidente, porque é mais fácil acreditar que o problema está nas conjugações astrais ou coisa que o valha, do que na generosidade e compreensão.

É triste assistir a esta desumanização e à adoração de umbigos. Tão triste como a falta de consciencialização para a mudança de comportamentos que temos de fazer em relação às agressões que fazemos ao nosso planeta.

Não podemos continuar a usar e a deitar fora. Em tudo.

A liberdade não é isto.

Ruben Östlund, O Quadrado

É um filme fora da caixa e com uma excelente banda sonora.

Começa por tentar definir o que é arte contemporânea, sendo que o critério maior é o dinheiro que se consiga obter, não só pela aderência do público como também, e talvez sobretudo, sensibilizando as doações utilizando, para tanto, promoções bem pensadas e especulativas que provoquem controvérsia. Os assuntos sensatos de aceitação generalizada, por norma, não garantem grandes aderências. A título de exemplo, o curador do museu, numa entrevista, responde/ pergunta à jornalista o que pensaria ela se a sua mala fosse exposta numa das vitrines das salas do museu, considerá-la-ia arte?

Actual e certeiro na avaliação da cultura mercantil, tem várias cenas em que se fica a pensar. Há um jantar de angariação de fundos, chique, em que numa performance de animal/homem controlada e bizarra, facilmente tudo se descontrola entre o actor e os presentes criando o caos. Há uma outra em que por causa do roubo de uma carteira e telemóvel, por descuido do politicamente correcto, a situação ganha contornos impensáveis.

É sempre por pouco. A linha é fininha e de fácil transposição. A elegância é frágil, porque a sociedade é desigual e cria bolsas de revolta imprevistas, especialmente se os marginais, neste caso os mendigos, são úteis na corrente social do irrepreensível.

Interessante e dá-nos mais uma achega para repensarmos até que ponto podemos, ou devemos, ignorar e utilizar quem, à partida, não parece ameaçar-nos.

Sempre com a música que, pensamos, não poderia ser outra.

Imperdível.

Il s’agit donc de choisir

Escolho esta pessoa e não aquela porque a admiro. Respeito-a pelo seu pensamento e pelas acções que pratica, pela beleza que reflecte em quem a ouve, pela honestidade com que vive ou pela generosidade e coragem com que reage às adversidades. Ou pela irreverência, pela graça, pela audácia ou desassossego.

Quando somos novos, por ingenuidade e por falta de experiência (como é devido), não temos como escolher. Paixões, atracções e simpatias encarregam-se disso. Em adultos começamos a soprar incoerências, maldades, traições e outros desamores e vamos ficando mais isolados. Não é bom. Mas não é o pior. Mau mesmo é sentirmo-nos mais tolerados do que amados.

C’est la vie.

Portugal à lista

IMG_2703.JPG

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

Dependendo do critério, temos

memórias de uma nação com raça,

mar, mar largo, o Atlântico, a suavizar o declive das encostas,

sol generoso e sorridente

e concertos ao luar.

Também temos futuro.

Ciência, artes, tecnologia, agricultura e pescas,

embora algumas se desenvolvam apenas na óptica de utilizadores.

Também temos dívida pública (para além da privada),

pouco dinheiro para investir em tantas necessidades,

principalmente na educação, porque atrás disso vem tudo.

Criatividade, cidadania, emprego e sustentabilidade. Independência.

ser livre

IMG_2704.JPG

pintura a óleo, Rui Couto

 

 

é dar liberdade aos outros

sobretudo aos que amamos.

Não tem a ver com andar despenteada ou descalça,

nem com teorias de correr o mundo de braços abertos.

Também pode.

Mas ser livre no coração e aceitar as escolhas,

que não nossas,

é que nos dá o verdadeiro sabor da liberdade.

E, como diz o poeta,

que tudo seja eterno, enquanto dure.

De preferência, se for bom, que dure muito tempo.

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