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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

de modo que

cada vez gosto mais de bolos. Ando mesmo caída por fotografias de bolos cremosos, especialmente de chocolate. E, por vezes, até isso me parece indecente, dado o colapso absurdo de sofrimento e destruição a que assistimos, mas temos de inventar encantos. Mas nem tudo são bolos.

Adorei o filme de Michel Franco, As filhas de Abril, tão humanamente cruel. A manipulação limite, ou seja, quando existe consciência do caminho que é preciso ir fazendo para se chegar ao controle do outro, sempre com muito encantamento e as melhores intenções, é de arrepiar. As reacções de concordância e de imobilidade que, por norma, vão ocorrendo são, por vezes, perturbadas por desvios arrojados que paralisam o guião. Pensamentos relâmpago, pequenos detalhes e eis outra história.

Wolfgang Becker - Adeus, Lenine! 2003

Só hoje vi este belíssimo filme que passou na RTP2. A vida tem disto, quando pensamos que não perdemos grandes coisas, aparece-nos, sem sequer termos pedido, uma bela fatia de pão de rala e uma chávena de chá quentinho numa esplanada calma, à beira-mar. Ou outro mimo inesperado e bom.

A realidade é, tantas vezes, difícil de acompanhar, valem-nos os ideais e os sonhos e, sobretudo, o amor.  Neste filme nada é esquecido, até a música. Situando-se antes da queda do muro de Berlim, a mãe sofre um ataque cardíaco - quando se dirige para uma reunião e vê o filho a ser preso numa manifestação contra o regime - e entra em coma durante oito meses, tempo em que a vida tanto muda no seu país. O esforço e empenho do filho é mais do que comovente, é um hino de amor, tentando poupá-la da ocidentalização da sua Alemanha. Com a ajuda de um amigo, gravam em cassetes noticiários num registo que já não existe e muda compotas para frascos cada vez mais difíceis de encontrar, tudo para manter na mãe o empenho e o desejo de intervir numa sociedade mais justa. Só mais tarde saberá que a par da militância, existiam também muitas dúvidas sobre a sociedade amplamente igualitária.

Entrar nas fantasias de quem amamos e dar-lhes consistência é tão gratificante que comparo com o que fazemos às nossas crianças, corremos, cantamos e fingimos que bebemos chá nas chaveninhas de plástico.

A delicadeza e a gentileza, motores maiores da humanidade.

carta para C.

bem hajas amiga de há tantos anos. Neste tempo de falta de esperança para o mundo que sonhávamos para os nossos filhos e netos não tens desanimado, pelo menos durante muitos dias, o que já não é pouco. Continuamos a encher boias, algumas com furos, com a força que ainda temos e que vamos fortificando com os livros, filmes e cozinhados. Continuamos a acreditar que tudo vai melhorar, que não vai ficar tudo bem, até porque já não estava, mas que os jovens se vejam como pré homens e mulheres, que arregacem mangas e ideias para o futuro que é deles, sobretudo.

E acreditamos.

o meu balão

Por norma, as limitações geram incompreensão, revolta, desafio, aceitação e conformismo. E, de certeza, tantos outros estados de que não me estou a lembrar, mas a aceitação é a que leva a palma. Ao aceitar estamos a compreender e daí vem o sossego. Se a infecção por COVID fosse a única doença que nos provocasse inquietação, mas não, estamos carregados de medos e ansiedades de tantas outras. E de culpa. E se não cheguei a todos os dedos quando passei as mãos pelo gel? e se? e se?

Anda a ser complicado manter a inocência que, mais por teimosia do que por crença, não quero abandonar. Já me parece um balão que mal controlo; valem-me os pássaros, de quem tanto gosto, que me ajudam a atrapalhar a sua subida e me fazem chegar o cordel.

em remodelação, como nas montras

é assim que ando a ver a minha vida e o mundo. Tem sido difícil mas é a minha estrada. E tenho aprendido, como todos e como sempre.

É surpreendente como os relacionamentos e os afectos têm mudado com o medo em pano de fundo, nalguns casos já se viam paredes de papelão, noutros adivinhavam-se embora enfeitados com exuberâncias panfletárias. Confesso que tive imensa dificuldade em eleger a pessoa que mais me decepcionou em 2020, mas consegui, não uma ou duas mas várias e juntei-as ao molho, abraçadas com fio de sapateiro – dá um ar artesanal – e lá estão no pódio. Quanto às que ficaram comigo, na plateia, agradeço-lhes a lealdade.

Não tem sido fácil e não será tão cedo, certamente, mas não pode vencer o cinismo e o egoísmo. É tão cru e tão feio. Os dias sobreviventes sem o calor do desejo de saber como vão os que queremos, sem a generosidade de bem fazer são um adiamento e penso que, decorrido todo este tempo, já temos a certeza que a responsabilidade individual é a atitude inteligente que podemos ter.

não gosto

à falta de razões que justifiquem raivas ou emoções afins, desdobra-se a hipocrisia em facetas risíveis. Isto porque nunca, por nunca, são falados abertamente os pormenores mesquinhos que dão origem a atitudes parvas.

E está bem visto.

Seria como desarmar exércitos, serviços de espionagem e de contra espionagem e passarmo-nos a entender, não porque pensássemos todos da mesma maneira, antes porque respeitaríamos as nossas diferenças.

Mas não, parece que não é boa ideia.

De modo que cá andamos com a distância social, justificadíssima por razões sanitárias, a que juntamos a distância da parvoíce e ainda outras distâncias que, conforme a criatividade e o umbigo de cada um, se considerem atendíveis.

Não gosto.

Julian Barnes, A única história

Tem a ver com amor, porque é a que conta. Nesse durante vai-se conhecendo tudo o que há para saber ou para ignorar.

Da intimidade à banalidade vai um passo de amor, ou muitos. Tudo faz sentido se nos sentimos inquietos para ver, sorrir e estar com quem amamos, não queremos outro sítio.

Sabemos que todas as histórias de amor parecem ridículas, menos a nossa. Barnes também engrandece a sua e, ainda por cima, escreve tão bem.

Elia Suleiman, O Paraíso, Provavelmente

Bingo. Boa inspiração e um filme bem conseguido (nem sempre uma coisa leva à outra). Adorei.

Ver passar os dias em Nazaré, Paris ou Nova York e assistir ao fluxo quotidiano das cidades sem praticamente nada dizer e com elevado sentido da realidade, só pode levar ao silêncio e à comicidade.

Arthur Schopenhauer dizia que o bom humor é a única qualidade divina do homem. Suleiman aproveita bem o seu dom para apelar pela sua Palestina, sem as grandes e justas argumentações que podem ser ditas, antes com um nonsense que não se esquece.

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