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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

o encontro junto ao tanque

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Iam esclarecer afastamentos e reatar a amizade que viveram durante muitos anos.

Que raio, não seria difícil com certeza, afinal ainda deveriam ter muito em comum, muito embora nos últimos anos, talvez cinco ou seis, não tivessem praticamente estado juntas, fosse por isto ou por aquilo. Nunca se tinham zangado, e isso é importante. É mesmo muito importante não poder ser recordada qualquer ofensa ou azedume, porque, de facto, não houve.

E então falaram de líquenes, da montanha e da beleza dos dias enevoados. Civilizadamente e sem emoção.

A ciumeira e a competição devem de ser uma espécie de fungo que ataca a amizade, ficando a indiferença educada.

Shohei Imamura, A Balada de Narayama

Vi este filme por volta dos meus vinte anos e não o voltei a ver nem procurei informação, para além do nome do realizador. Já lá vão quase quarenta anos. Do que me lembro, para além dos amigos e da sala do Apolo 70, é que saí arrasada. Aos vinte anos a vida não é uma preocupação e a velhice é uma questão pacifica, porque longínqua, mas a sensibilidade tem poucas defesas e o filme é brutalmente real, passado numa aldeia pobre, onde se sobrevive, literalmente, e onde a poesia só vem do som e do movimento do vento que passa no monte Narayama.

Ao longo deste tempo por várias vezes me tenho lembrado do filme sem, no entanto, ter mexido um dedo para o rever. Não quero, embora ultimamente seja recorrente comparar o que me indignou e doeu com o que fazemos aos nossos velhos que amamos. E do que me lembro é de uma mãe meiga, lúcida e válida mas que tem de dar o seu lugar na casa aos mais novos que vão chegando e, dado que se aproxima dos setenta anos - idade com que são levados montanha acima pelos filhos mais velhos para aguardarem a morte – ainda com os dentes bons, parte-os com uma pedra, para acelerar a decadência.

À aceitação da moral de cada época pouco se pode fugir. O facto de o filme ser baseado numa lenda da cultura japonesa dá-nos uma margem geográfica para respirar fundo. Mas não demasiado, porque a ganância tem devorado a dignidade das pessoas em todas as épocas e países.

Não podemos abrandar a coragem de lutar por uma melhor distribuição da riqueza. Também não podemos abrandar a força da poesia nas nossas vidas.

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