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agalma

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

talvez a emoção que menos estimule o poeta seja a alegria, tão breve e rara de sentir

desassossego

Tenho andado a seguir, com muito interesse, as conversas que a cineasta Graça Castanheira tem com convidados tentando imaginar o mundo em 2084. Pessoas envolvidas directamente, pelo menos os que já vi, em projectos científicos que visam o desenvolvimento da inteligência artificial e a introdução de mais robotização nas nossas vidas. Não fico nem assustada nem aos pulos de contentamento, fico a pensar. As investigações custam dinheiro e estes investimentos são contemporâneos de barcos cheios de gente a morrer às portas (baías) de países considerados democráticos e respeitadores dos Direitos do Homem. É verdade que o mundo pula e avança como bola colorida nas mãos de uma criança (palavras de poeta). Mas é tão díspar a convivência de interesses e de prioridades.

Calhou, também por estes dias, ver o filme O Congresso, de Ari Folman. Sem saber de que tratava fui ficando desconfortável e apreensiva. Uma visão de futuro desumanizada e cruel, com um único raio de generosidade e delicadeza que vem da actriz Robin Wright, representando-se a si própria.

Lembro-me ainda de uma entrevista a um conceituado intelectual português que justifica gostar de punk, não propriamente por escolha mas mais por rejeição ao espírito dominante dos anos sessenta, movimento hippie, filosofia em que não acredita, porque isto de flores e de mãos dadas não é para ele.

Juntando tudo, e dado que não gosto de punk, em 2084 gostaria, mesmo muito, que andássemos com flores nos cabelos e de mãos dadas, a cantar.

o cantor

Estavam a conversar na esplanada, como outros. Enquanto tomei o café, fui para longe e voltei, como tantas vezes. Nisto, reparo melhor, e ele já lhe cantava uma canção. Alto lá, isto já não é coisa de todos os dias. Lindo. Embevecido e convicto, como se estivesse num grande palco com a luz certa para seduzir uma sala apinhada de fãs. Ela, envergonhada e rendida. E com razão. Ele cantou melhor que o autor, digo eu, que conheço bem a canção.

Javier Marías, Berta Isla

Já quase no fim do livro, pensa Berta

E descobrimos – na verdade, sem grande surpresa – que existem lealdades imerecidas e incondicionalidades inexplicáveis, pessoas com as quais tivemos uma determinação e um propósito juvenis ou, melhor, primitivos, e em que o primitivismo prevalece sobre a maturidade e a lógica, sobre o ódio dos enganados e o ressentimento.

Um excelente livro sobre a disponibilidade e o altar que cada um dá ao amor. Neste caso, ao amor conjugal.

Javier Marías, sábio a escrever e a criar cumplicidades, lembra-nos a dignidade de aceitar, sem fatalismos e de cabeça levantada, não só o que escolhemos como o que daí decorre. Até.

Porque nada é eterno, nem mesmo as nossas contradições.

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